Corretor automático e inteligência artificial substituem o revisor?
Por Joyce Almeida. Atualizado em .
As ferramentas automáticas melhoraram muito, e qualquer autor deveria usá-las. A pergunta certa não é se elas substituem o revisor, e sim em que parte do trabalho elas ajudam e em que parte não chegam.
O que as ferramentas pegam bem
- Erros de digitação: letras trocadas, palavras coladas, espaço duplo.
- Ortografia de palavras isoladas: acentos, hifens, grafias pelo Acordo Ortográfico.
- Concordância simples, quando sujeito e verbo estão próximos.
- Pontuação básica, como vírgula antes de “mas”.
Para isso, são rápidas, baratas e incansáveis. Vale passá-las sempre.
O que deixam passar
Palavras que existem, no lugar errado. O corretor só vê que a palavra existe:
Ele saiu mas cedo para levar o carro ao concerto que tinha marcado a dez dias.
As três palavras destacadas existem no dicionário; nenhuma está certa no contexto (“mais”, “conserto” e “há”).
Concordância à distância. Quanto mais longe o sujeito do verbo, mais as ferramentas erram:
A lista de pendências que os sócios deixaram para a reunião de sexta-feira foram discutidas.
O núcleo do sujeito é “lista”: o certo é “foi discutida”.
Coerência ao longo do livro. Nenhuma ferramenta de correção lembra que a personagem tinha olhos verdes no capítulo 2 e castanhos no 14, que “Luíza” virou “Luiza” na metade do livro ou que a viagem começou numa terça e terminou “dois dias depois”, no domingo.
Sentido. Uma frase pode estar gramaticalmente perfeita e dizer o contrário do que o autor queria.
O risco específico da IA
Ferramentas de inteligência artificial vão além da correção: reescrevem. Às vezes isso melhora a frase; às vezes:
- trocam a voz do autor por um estilo genérico, igual em todos os livros;
- mudam o sentido de uma frase ambígua sem perguntar qual era a intenção;
- “corrigem” o que estava certo, como um regionalismo, a fala de um personagem ou uma escolha deliberada de ritmo;
- inventam datas, nomes e dados quando pedimos para completar ou resumir.
O problema não é a ferramenta errar; é ela errar com confiança, sem marcar o que mudou.
Como usar bem
- Passe o corretor antes de enviar o texto ao revisor. Menos lapsos óbvios significa mais atenção para o que importa.
- Nunca aceite sugestões de IA em bloco. Compare frase a frase, com o controle de alterações ligado.
- Peça para a IA explicar, não para reescrever. “Esta frase tem algum erro de concordância?” é mais seguro que “melhore este parágrafo”.
- Deixe a última leitura para uma pessoa, que conhece o livro inteiro e responde pelas mudanças.
E os textos escritos com IA?
Livros escritos com ajuda de inteligência artificial costumam ter os mesmos sintomas: repetição de estruturas, frases genéricas, transições automáticas e incoerências entre capítulos. A revisão sozinha não resolve isso, porque o texto está correto, só não soa como ninguém. É trabalho de copidesque, que dá ao livro uma voz consistente, a partir de R$ 14 por lauda.